Cidadania Italiana em Xeque: Municípios, Demografia e a Estratégia de Controle do Passaporte

Gabriela Pimentel

1/5/20264 min ler

low light photography of armchairs in front of desk
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A cidadania italiana por descendência deixou de ser apenas um direito histórico. Hoje, ela está no centro de uma disputa que envolve capacidade administrativa local, demografia, política migratória e estratégia geopolítica.

Antes de avançarmos, veja os pontos-chave que você vai entender neste artigo:

  • ✔️ Por que pequenos municípios alegam “colapso” para registrar cidadanias

  • ✔️ O caso de Gazzo Veronese e o argumento da sobrecarga administrativa

  • ✔️ Como crises na América do Sul influenciaram mudanças na lei italiana

  • ✔️ O papel do passaporte italiano na geopolítica migratória

  • ✔️ O “fator Tajani” e o fim da cidadania ilimitada

  • ✔️ O contraste entre o discurso político e os dados reais

Quando 1,6 Cidadania por Mês se Torna um “Problema de Estado”

O município de Gazzo Veronese, no Vêneto, tem cerca de 5 mil habitantes. Ainda assim, tornou-se símbolo de um debate muito maior do que seu tamanho sugere.

O prefeito Stefano Negrini afirmou ao Tribunal Administrativo Regional (TAR) que o volume médio de 20 processos de cidadania italiana por ano, majoritariamente de brasileiros, seria suficiente para comprometer o funcionamento da prefeitura.

Segundo o argumento apresentado, a simples transcrição de certidões de nascimento e casamento — menos de duas por mês — exigiria dedicação quase exclusiva dos servidores municipais, prejudicando outras atividades administrativas.

Essa justificativa foi usada para explicar por que uma sentença definitiva do Tribunal de Veneza, que reconhecia o direito à cidadania, deixou de ser cumprida por meses.

Prioridades Administrativas ou Desvio de Finalidade?

Mais do que alegar dificuldades técnicas, o discurso do prefeito revelou um incômodo político.

Negrini afirmou que os descendentes “chegam depois” nas prioridades do município, sugerindo que os requerentes buscariam apenas o passaporte europeu para circular pelo mundo, sem intenção real de vínculo com a Itália.

Esse tipo de declaração reforça uma tendência crescente: a tentativa de requalificar a cidadania como um favor administrativo, e não como um direito subjetivo reconhecido judicialmente.

Para juristas italianos, esse posicionamento colide com princípios básicos do Estado de Direito, especialmente quando há decisão judicial transitada em julgado.

A Geopolítica do Passaporte Italiano Não Começou Agora

O endurecimento do discurso italiano não é isolado nem recente. Ele tem raízes profundas em experiências traumáticas do passado.

O “efeito Corralito” e a virada de chave

Em 2001, durante a crise econômica argentina conhecida como Corralito, milhares de descendentes de italianos recorreram aos consulados em busca de reconhecimento de cidadania como forma de escapar do colapso financeiro.

O historiador Fernando Devoto descreve esse momento como uma mudança simbólica: o passaporte italiano deixou de ser apenas herança cultural e passou a ser visto como instrumento de mobilidade e proteção.

Dados da Fondazione Migrantes, especialmente no Rapporto Italiani nel Mondo, mostram que, após 2001, houve um aumento expressivo das inscrições no AIRE na Argentina — criando um contingente de cidadãos formalmente italianos, mas residentes no exterior.

Venezuela: quando a cidadania vira variável geopolítica

Se a Argentina ensinou à Itália uma lição econômica, a Venezuela trouxe um alerta geopolítico.

Com o agravamento da crise humanitária sob o regime de Nicolás Maduro, os pedidos de reconhecimento de cidadania em cidades como Caracas e Maracaibo aumentaram de forma significativa.

Relatórios internos do Ministério do Interior italiano e análises estratégicas indicavam um risco concreto: um colapso político poderia gerar um fluxo súbito de novos cidadãos italianos, com direito imediato a:

  • acesso ao Servizio Sanitario Nazionale (SSN),

  • benefícios assistenciais,

  • impacto sobre um sistema previdenciário já pressionado pelo envelhecimento populacional.

Nesse contexto, a reforma restritiva aprovada em maio de 2025 funcionou como um muro burocrático preventivo, mais estratégico do que jurídico.

Brasil: o maior desafio demográfico da Itália

Nenhum país preocupa mais Roma do que o Brasil.

Estimativas amplamente citadas por institutos demográficos italianos apontam para até 30 milhões de descendentes de italianos em território brasileiro. Nos últimos anos, cresceu exponencialmente o número de ações judiciais chamadas de “contra a fila”.

Fatores como:

  • instabilidade política,

  • volatilidade cambial,

  • busca por mobilidade global

levaram famílias inteiras a enxergar a cidadania não como projeto migratório imediato, mas como seguro geopolítico pessoal.

O “Fator Tajani” e o Fim da Cidadania Romântica

Sob a liderança do ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani, alinhado à visão pragmática da primeira-ministra Giorgia Meloni, a Itália adotou filtros claros:

  • taxas elevadas, que transformam o processo em um investimento significativo;

  • fortalecimento do debate sobre limite de gerações;

  • maior rigor documental e procedimental.

Na prática, o sistema passou a operar como seleção socioeconômica indireta.

Discurso Alarmista x Realidade dos Números

Apesar da retórica governamental, os dados contam outra história.

  • O governo frequentemente menciona cenários hipotéticos de dezenas de milhões de pedidos simultâneos.

  • Na prática, registros oficiais indicam cerca de 40 mil reconhecimentos em três anos — um número irrisório frente às projeções alarmistas.

Além disso, existem filtros naturais já consolidados:

  • dificuldade de obter certidões do século XIX,

  • custos elevados,

  • tempo prolongado dos processos,

  • desinteresse de grande parte dos descendentes.

Quem São, de Fato, os Requerentes?

Outro ponto ignorado pelo discurso oficial é o perfil real dos requerentes.

Estudos sociológicos e dados de escritórios consulares indicam que a maioria dos descendentes que busca a cidadania italiana possui:

  • alto nível educacional,

  • estabilidade financeira,

  • perfil técnico ou profissional qualificado.

Ou seja, trata-se de um capital humano que poderia contribuir significativamente para a economia italiana — caso existissem políticas efetivas de integração profissional.

Sem essas políticas, o passaporte acaba sendo utilizado apenas como instrumento de mobilidade internacional, e não como ponte de integração com a Itália.

Considerações Finais

O caso de Gazzo Veronese não é exceção: é sintoma.

Ele revela como a cidadania italiana deixou de ser tratada apenas como herança histórica e passou a ser gerida como ativo estratégico, limitado, seletivo e politicamente controlado.

A Itália afirma honrar sua diáspora, mas sinaliza claramente que não pretende absorver os efeitos das crises políticas e econômicas da América do Sul.

Para descendentes brasileiros, o recado é inequívoco:
o direito de sangue permanece, mas
o caminho está cada vez mais burocrático, custoso e politizado.

Nesse cenário, planejamento jurídico, informação qualificada e estratégia deixaram de ser opcionais — tornaram-se essenciais.