Cidadania Italiana: Proposta do MAIE Prevê Exigência de Italiano B1 para Bisnetos e Gerações Futuras

Gabriela Pimentel

12/29/20254 min ler

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A cidadania italiana por descendência volta a ser tema central no Parlamento — desta vez com uma proposta que tenta equilibrar direito de sangue, vínculo cultural e realidade demográfica da Itália.

Antes de avançarmos, veja os principais pontos que você vai encontrar neste artigo:

  • ✔️ O que muda com a nova proposta apresentada pelo MAIE

  • ✔️ Quem continuará tendo cidadania automática

  • ✔️ Por que o nível B1 de italiano entra no debate

  • ✔️ Como essa proposta se relaciona com a recente reforma restritiva do governo

  • ✔️ O impacto para famílias brasileiras e latino-americanas

  • ✔️ Por que língua e cidadania estão cada vez mais conectadas na Europa

O Que Propõe o MAIE Sobre a Cidadania Italiana

O Movimento Associativo Italiani all’Estero (MAIE) apresentou, em Roma, um projeto de lei que altera pontos relevantes da transmissão da cidadania italiana iure sanguinis.

O texto propõe:

  • manutenção da cidadania automática para filhos e netos de italianos;

  • exigência de certificado de proficiência em italiano (nível B1) para bisnetos e gerações posteriores;

  • reforço do vínculo linguístico e cultural como critério para a continuidade da cidadania ao longo das gerações.

A proposta foi apresentada pelo deputado Franco Tirelli, eleito pela América do Sul, e será encaminhada ao Senado pelo senador Mario Borghese, ambos representantes históricos da comunidade italiana no exterior.

Por Que o Italiano B1 Entra no Debate?

Segundo os autores do projeto, a exigência do nível B1 não tem caráter excludente, mas simbólico e integrador.

A lógica apresentada é clara:
se a cidadania se estende indefinidamente no tempo, a Itália poderia — legitimamente — exigir um
mínimo de conexão linguística e cultural das gerações mais distantes.

O nível B1, de acordo com o Quadro Europeu Comum de Referência para Línguas (QECR), corresponde a um grau intermediário, que permite ao cidadão:

  • compreender temas do cotidiano,

  • comunicar-se de forma funcional,

  • manter uma relação mínima com a língua e a cultura do país.

Essa exigência já existe em outros contextos europeus, como naturalizações por residência, inclusive na própria Itália.

A Proposta Surge Após uma Reforma Considerada Restritiva

O projeto do MAIE não surge isoladamente. Ele é apresentado meses depois da entrada em vigor da reforma do governo italiano, aprovada por decreto, que restringiu o reconhecimento da cidadania para descendentes nascidos fora da Itália.

Essa reforma foi alvo de críticas de:

  • associações da diáspora italiana,

  • juristas especializados em direito constitucional,

  • representantes políticos eleitos no exterior.

O argumento central é que a norma limita um direito tradicionalmente reconhecido como originário, além de criar entraves práticos para famílias, especialmente na América do Sul, em processos que envolvem menores.

O próprio MAIE afirma que a proposta apresentada funciona como uma alternativa legislativa mais equilibrada, capaz de substituir ou corrigir os excessos da reforma atual.

Demografia, Imigração e Cidadania: Um Debate Europeu

A discussão italiana não acontece no vácuo.

Diversos países europeus vêm revisando suas leis de cidadania e imigração em resposta a:

  • queda acentuada da taxa de natalidade,

  • envelhecimento da população,

  • pressão sobre sistemas previdenciários e de saúde.

Relatórios recentes da Comissão Europeia e da OCDE indicam que a manutenção de vínculos com comunidades no exterior — inclusive por meio da cidadania — é vista como um instrumento estratégico para enfrentar a crise demográfica.

Nesse contexto, a exigência de idioma aparece como uma ferramenta de integração, não como barreira absoluta.

A Infraestrutura para Aprender Italiano no Exterior

Um dos pontos destacados pelos defensores da proposta é que a exigência do B1 seria viável graças à ampla rede de ensino da língua italiana fora do país.

Entre os recursos disponíveis estão:

  • Institutos Italianos de Cultura,

  • escolas italianas e bilíngues reconhecidas,

  • associações culturais da diáspora,

  • certificações oficiais como CILS, CELI e PLIDA.

Na prática, o argumento é que há meios acessíveis para que descendentes cumpram o requisito, especialmente em países como o Brasil e a Argentina, onde a presença cultural italiana é histórica.

Viabilidade Política: O Desafio do MAIE

Atualmente, o MAIE conta com apenas um deputado e um senador no Parlamento italiano. Isso significa que o avanço do projeto dependerá de:

  • articulação política com outros partidos,

  • diálogo com o governo após decisões judiciais pendentes,

  • pressão institucional das comunidades italianas no exterior.

Os autores acreditam que, caso o Tribunal Constitucional venha a declarar inconstitucional a reforma restritiva atual, essa proposta poderá ganhar força como solução legislativa de consenso.

O Que Isso Significa Para Descendentes no Brasil e na América Latina

Se aprovada, a proposta poderá representar:

  • maior segurança jurídica para filhos e netos;

  • uma exigência adicional, porém objetiva, para bisnetos e gerações futuras;

  • substituição de critérios restritivos por um modelo baseado em vínculo cultural.

Para famílias que planejam o reconhecimento da cidadania italiana, o cenário reforça a importância de:

  • acompanhar de perto as mudanças legislativas,

  • planejar estratégias com antecedência,

  • entender que língua, cidadania e imigração estão cada vez mais conectadas.

Considerações Finais

A proposta do MAIE mostra que o debate sobre cidadania italiana está longe de se encerrar. Ao contrário: ele evolui para um modelo que tenta equilibrar direito histórico, identidade cultural e necessidades concretas do Estado italiano.

Se a cidadania italiana sempre foi transmitida pelo sangue, o Parlamento agora discute se — e até que ponto — a língua pode se tornar o elo entre passado, presente e futuro da diáspora.

Em um cenário de reformas, decisões judiciais pendentes e forte impacto para brasileiros e latino-americanos, informação qualificada e acompanhamento especializado são essenciais para quem deseja preservar ou conquistar esse direito.